terça-feira, 21 de abril de 2009

Os Livros


...A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros.
Mas estes mentem, ainda os mais sinceros. Os menos hábeis, por falta de palavras e de frases onde possam abrangê-la, traçam da vida uma imagem trivial e pobre; alguns, como Lucano, tornam-na mais pesada e obstruída com uma solenidade que ela não tem. Outros, pelo contrário, como Petrónio, aligeiram-na, fazem dela uma bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso.
Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo diferente e praticamente quase inabitável.
Os filósofos para poderem estudar a realidade pura, submetem-na quase às mesmas transformações a que o fogo ou o pilão submetem os corpos: coisa alguma de um ser ou de um facto, tal como nós o conhecemos, parece subsistir nesses cristais ou nessas cinzas. Os historiadores apresentam-nos, do passado, sistemas excessivamente completos, séries de causas e efeitos exactos e claros demais para terem sido alguma vez inteiramente verdadeiros;dispõem de novo esta dócil matéria morta, e eu sei que Alexandre escapará sempre mesmo a Plutarco. Os narradores, os autores de fábulas milésias, não fazem mais, como os carniceiros, que pendurar no açougue pequenos bocados de carne apreciados pelas moscas. Adaptar-me-ia muito mal a um mundo sem livros; mas a realidade não está lá, porque eles a não contêm inteira.
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Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Segredo


...querem que lhes diga qual o segredo do mundo inteiro?

É que lhe conhecemos apenas as costas,vemos tudo por trás e parece-nos brutal. Aquilo não é uma árvore, aquilo não é uma nuvem, mas sim as costas de uma nuvem. Não vêem que tudo se curva e esconde a cara? Se nós pudéssemos ver de frente...


G.K.Chesterton em O Homem que era Quinta-Feira

sábado, 21 de março de 2009

21 de Março, Dia Mundial da Poesia

Duarte Belo

(...)
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado
(...)

Ruy Belo em A Margem da Alegria citado em Coisas de Silêncio

quinta-feira, 12 de março de 2009

CDC/DCD


A natureza em conjunto padece
e como o sofrimento muito a cansa
vinga-se em quem primeiro lhe aparece

e para ser maior essa vingança
já a futura morte transparece
no pequenino rosto da criança

Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Exercício


Nos dias em que o vento anima a roupa
suspensa desta ou daquela janela
o meu olhar perdido não a poupa
e vai seguindo os movimentos dela

Aqui estou tristezas alegrias
Nesta colina do instante canto
esta vida indecisa de maresias
ó vida ameaçada enquanto

a minha grande esperança é o café
Agora que o tomei
com pressa e frenesim até
o que vai ser a vida ainda não sei

Mosteiro dos Jerónimos fachada
impassível ao vão vaivém humano
aqui ando eu perdido de ano em ano
ó vida noves fora nada

Nos dúbios dias da destruição do verão
quando tudo parece ir acabar
regresso então à versificação
e encontro nos papéis o meu segundo mar

Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Orgulho


O orgulho mantém-se sempre e não perde nada de si mesmo quendo renuncia à vaidade.


Se não fossemos orgulhosos, não nos queixávamos do orgulho do outros.


O orgulho é igual em todos nós e a única diferença reside no modo e nos meios que utilizamos para o pôr em prática.


Até parce que a natureza, que foi tão hábil em dispor os nossos orgãos no nosso corpo, para nos tornar mais felizes, deu-nos também o orgulho para nos poupar a dor de enfrentar as nossas imperfeições.


O orgulho desempenha um papel mais importante do que a bondade nas observações que fazemos àqueles que cometem erros. Nós não os repreendemos para os corrigir,mas, sobretudo, para lhes mostrar que nós não cometemos esses erros.


François de La Rochefoucauld em Máximas e Reflexões Morais

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Domingo Triste


Lucas 21,28


Quando o último pássaro morrer
na última oliveira a ocidente
opõe o peito ao que acontecer
e levanta a cabeça dignamente

Despede-te da terra onde nascer
tu nascias enfim continuamente
repara no nascente e no poente
que muito em breve deixarás de ver

Não valem cinco pássaros apenas
dois asses e Deus não os reconhece
no meio das demais coisas terrenas?

Levanta-te. Coragem coração
O Espiríto nas coisas comparece
Aproxima-se a libertação

Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Aos Homens do Cais


Plantados como árvores no chão
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz

Nenhum passado vale o dia-a-dia
sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país

Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Televisão


Embora algumas pessoas procurem essas práticas antigas para libertar a mente de um ritmo padronizado (ioga, artes marciais, meditação), a maioria não o faz, recorrendo às drogas como alternativa. O álcool resulta, o Valium é mais eficaz. Alguns comprimidos para dormir também surtem efeito. E existe a televisão.


Qualquer um destes métodos funciona. As drogas oferecem-nos uma fuga ao tomarem a dimensão de experiência e meios de descontracção. O mesmo acontece com a televisão.


Todos ajudam a interromper o pensamento obssessivo, mas é este o único ponto em comum com a meditação e outras práticas.


...Perante o televisor, um guru tecnológico absorvente, a nossa mente por certo não se encontra "vazia", apesar da frequência alfa. As imagens fluem e a mente não está calma, sossegada nem liberta. Assemelha-se mais ao cérebro de um morto-vivo. Encontra-se ocupada. Nenhuma renovação, se mostra possível a partir desse estado. Para que tal se verifique, a mente deve abrandar e, uma vez repousada, procurar novos tipos de estímulos e novos exercícios. A televisão não oferece descanso nem estímulo.


A televisão inibe a nossa capacidade de pensar, e ao fazê-lo não nos conduz à liberdade mental, à descontracção ou a um renovar de energias. Apenas conduz a um estado de exaustão mental ainda mais acentuado. Pode libertar-nos temporariamente dos padrões de pensamento obssessivo anteriores, mas é tudo quanto pode fazer. Com ela a mente jamais se esvazia, vive ocupada. E o que é pior, com as imagens e pensamentos obssessivos dos outros.


Nesse sentido, serve apenas para dar continuidade aos mesmos padrões mentais de que procuramos libertar-nos. O nosso espírito encontra-se tão desgastado antes quanto depois de vermos televisão. Disso não pode resultar nada de novo ou criativo, apenas o sono, se tivermos sorte, tal como acontece no caso do álcool e do Valium.




Jerry Mander em Quatro Argumentos Para Acabar Com A Televisão

sábado, 20 de dezembro de 2008

Como Se Entrássemos Num Jardim


É na obra para a qual buscou um título bíblico, De profundis, que o escritor Oscar Wilde dá o sguinte testemunho :"No Natal, consegui apoderar-me de um Novo Testamento em grego, e todas as manhãs, depois de ter limpo a cela e de ter polido os pratos, leio um pouco dos Evangelhos... Nós perdemos a naiveté, a frescura e o encanto dos Evangelhos. Ouvimos lê-los demasiadas vezes, e mal de mais, e toda a repetição é anti-espiritual. Quando regressamos ao grego, é como se entrássemos num jardim de lírios, depois de sairmos de uma casa estreita e escura".

José Tolentino Mendonça em A Leitura Infinita

domingo, 7 de dezembro de 2008

Suave Como Uma Carícia


...Através da janela, os olhares dos machos pesaram tudo o que escolheram. Com os seus traços iluminados pela lâmpada muito próxima, as raparigas olham para o grupo de homens, de sorriso nos lábios. Esperam que cada gesto lhes vá valer mais um cliente. Essa esperança reanima-as. Mostram até ao último dos seus encantos, os que ainda estavm escondidos. Cínicamente, estendem as pernas, pondo à mostra as coxas, até à articulação das ancas, de olhos postos no grupo de homens, e à espera que lhes façam sinal.

Por momentos, as que tiveram mais sorte voltam, de cara sorridente. A velha que prepara café turco num canto do quarto envolve-as com o olhar, suave como uma carícia...
Mircea Eliade em O Romance do Adolescente Míope

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma Corrente Indomável


...Os nossos pontos de vista são completamente opostos, e é por isso que somos inseparáveis. Ele, é céptico, eu, sou dogmático. Ele, é materialista, eu, sou vitíma da metafísica. Ele, é calmo e mostra uma indiferença fria, eu, sou como uma corrente indomável.

Andamos um ao lado do outro de noite, atormentados pelos nossos pensamentos. Às vezes, colocamo-nos problemas sobre as mulheres, o amor, os corpos. Mas vemos tudo isso à luz da inteligência, da qual somos ambos orgulhosos. No fundo dos nossos corações, somos os dois autênticos sentimentais. E sabemos disso os dois. E - como sabemos em que é que somos vulneráveis- fazemos o possível para o esconder.


Mircea Eliade em O Romance do Adolescente Míope

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Algumas Reflexões Morais


A maior parte das vezes, as nossas virtudes não passam de vícios mascarados.


O amor-próprio é o nosso maior adulador.


A paixão pode enlouquecer os mais espertos, como pode levar os mais idiotas a tornarem-se muito industriosos.


As paixões têm a sua lógica própria e fabricam injustiças, o que faz com que seja perigoso segui-las. Logo, devemos ser cautelosos mesmo quando aos nossos olhos parecem justificáveis.


As paixões engendram muitas vezes os seus contrários. A avareza leva, por vezes, à prodigalidade e vice-versa; podemos ser firmes e determinados porque somos fracos, tal como podemos ser audazes porque somos tímidos.



François de La Rochefoucauld em Memórias e Reflexões Morais

sábado, 15 de novembro de 2008

Vejo Passar os Barcos


Vejo passar os barcos
sob a chuva

Sentado sobre a ausência

Nenhuma boca
pronuncia
o nome

De mãos vazios
vejo passar
os barcos

Egito Gonçalves em O Fósforo no Palheiro

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

TV & Necessidades


Aquilo a que assistimos na televisão é o que decorre da mentalidade e dos objectivos de cem empresas.
Embora a televisão pretenda ser uma tecnologia de massas aberta a todas as pessoas, visto todos poderem passar pela experiência de ver televisão, ela de facto pouco mais é do que o instrumento dessas empresas.
Nos EUA, quatro em cada cinco dólares dos rendimentos televisivos advêm dessas empresas, o que significa obviamente que se as redes de televisão não as "lisonjeassem", deixariam de existir. ... Sem esse instrumento único e monolitico que é a televisão, o poder e controlo efectivos dessas grandes empresas não poderia exercer-se com acontece actualmente.
Um empreendimento económico monolitico necessita de meios de transmissão monoliticos para para divulgar a sua filosofia e promover mudanças rápidas nos padrões de consumo. As próprias empresas não poderiam existir sem um instrumento como a televisão, capaz de atingir todas as pessoas ao mesmo tempo e adaptar as necessidades humanas ao novo modelo do meio ambiente.

Jerry Mander em Quatro argumentos para Acabar com a Televisão

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Continentes e Desertos


Na praia sob um chapéu à Hockney
eu vi uma história da guerra
o sol que me caía no corpo também caía
no vosso corpo

sobre a praia sob o chapéu de listas
verdes e azuis mal se distinguindo a luz
do verde e do azul sendo sempre aos que
passavam só azul, apenas verde como

vós, perfeitos corpos imperfeita coisa
de dizer. Um,
era a própria corrida que lançava sobre
a Costa a leve penugem negra como só

aos trinta anos ainda têm os portugueses
ah! oh! o outro não era tão bonito
era bonito, lembrando a cada um a guerra
a guerra a guerra puta que pariu
e mais às áfricas, com menos uma perna era

levado sob a areia
que ventos levemente erguiam
com um braço sobre o outro entrando o
mar

Ainda havia uma criança, algumas bichas
e um moinho de papel que depois comprei.
João Miguel Fernandes Jorge em Poemas Escolhidos

domingo, 28 de setembro de 2008

Paul Newman (1925-2008)


Lucas, 21, 28



Quando o último pássaro morrer
na última oliveira a ocidente
opõe o peito ao que acontecer
e levanta a cabeça dignamente

Despede-te da terra onde nascer
tu nascias enfim contìnuamente
repara no nascente e no poente
que muito em breve deixarás de ver

Não valem cinco pássaros apenas
dois asses e Deus não os reconhece
no meio das demais coisas terrenas?

Levanta-te. Coragem coração
O Espírito nas coisas comparece
Aproxima-se a libertação


Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Grajeia


A grajeia caíu
no próprio chão que havia.

Amarelo impossível,
de trémulas mãos
a grajeia saltou
e no chão rolou,
se arredondinhou.

Cara de santinha,
quase auréola tinha.
Santa que tira a febre,
não santa que a dá,
cara de lua cheia,
a grajeia ficou
onde esteve (está?)

Alexandre O'Neill em As horas já de números vestidas (1981)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Mendigo Com Lugar Cativo


Com o tapa-misérias a escorrer-lhe dos ombros,
o morse da bengala apercutir o chão,
remorseando vai os passarões que somos.

A dedo, a medo, a desfazer o gesto,
na ranhura da caixa a moeda metemos.

Metida a moeda, o espantalho fala
do céu que, sem dúvida, merecemos.

Que pragas calarás quando não damos?

Alexandre O'Neill em As Horas Já De Números Vestidas (1981)

sábado, 6 de setembro de 2008

Fala!


Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala franciú fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

Alexandre O'Neill em Abandono Vigiado (1960)