sábado, 20 de dezembro de 2008

Como Se Entrássemos Num Jardim


É na obra para a qual buscou um título bíblico, De profundis, que o escritor Oscar Wilde dá o sguinte testemunho :"No Natal, consegui apoderar-me de um Novo Testamento em grego, e todas as manhãs, depois de ter limpo a cela e de ter polido os pratos, leio um pouco dos Evangelhos... Nós perdemos a naiveté, a frescura e o encanto dos Evangelhos. Ouvimos lê-los demasiadas vezes, e mal de mais, e toda a repetição é anti-espiritual. Quando regressamos ao grego, é como se entrássemos num jardim de lírios, depois de sairmos de uma casa estreita e escura".

José Tolentino Mendonça em A Leitura Infinita

domingo, 7 de dezembro de 2008

Suave Como Uma Carícia


...Através da janela, os olhares dos machos pesaram tudo o que escolheram. Com os seus traços iluminados pela lâmpada muito próxima, as raparigas olham para o grupo de homens, de sorriso nos lábios. Esperam que cada gesto lhes vá valer mais um cliente. Essa esperança reanima-as. Mostram até ao último dos seus encantos, os que ainda estavm escondidos. Cínicamente, estendem as pernas, pondo à mostra as coxas, até à articulação das ancas, de olhos postos no grupo de homens, e à espera que lhes façam sinal.

Por momentos, as que tiveram mais sorte voltam, de cara sorridente. A velha que prepara café turco num canto do quarto envolve-as com o olhar, suave como uma carícia...
Mircea Eliade em O Romance do Adolescente Míope

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma Corrente Indomável


...Os nossos pontos de vista são completamente opostos, e é por isso que somos inseparáveis. Ele, é céptico, eu, sou dogmático. Ele, é materialista, eu, sou vitíma da metafísica. Ele, é calmo e mostra uma indiferença fria, eu, sou como uma corrente indomável.

Andamos um ao lado do outro de noite, atormentados pelos nossos pensamentos. Às vezes, colocamo-nos problemas sobre as mulheres, o amor, os corpos. Mas vemos tudo isso à luz da inteligência, da qual somos ambos orgulhosos. No fundo dos nossos corações, somos os dois autênticos sentimentais. E sabemos disso os dois. E - como sabemos em que é que somos vulneráveis- fazemos o possível para o esconder.


Mircea Eliade em O Romance do Adolescente Míope

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Algumas Reflexões Morais


A maior parte das vezes, as nossas virtudes não passam de vícios mascarados.


O amor-próprio é o nosso maior adulador.


A paixão pode enlouquecer os mais espertos, como pode levar os mais idiotas a tornarem-se muito industriosos.


As paixões têm a sua lógica própria e fabricam injustiças, o que faz com que seja perigoso segui-las. Logo, devemos ser cautelosos mesmo quando aos nossos olhos parecem justificáveis.


As paixões engendram muitas vezes os seus contrários. A avareza leva, por vezes, à prodigalidade e vice-versa; podemos ser firmes e determinados porque somos fracos, tal como podemos ser audazes porque somos tímidos.



François de La Rochefoucauld em Memórias e Reflexões Morais

sábado, 15 de novembro de 2008

Vejo Passar os Barcos


Vejo passar os barcos
sob a chuva

Sentado sobre a ausência

Nenhuma boca
pronuncia
o nome

De mãos vazios
vejo passar
os barcos

Egito Gonçalves em O Fósforo no Palheiro

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

TV & Necessidades


Aquilo a que assistimos na televisão é o que decorre da mentalidade e dos objectivos de cem empresas.
Embora a televisão pretenda ser uma tecnologia de massas aberta a todas as pessoas, visto todos poderem passar pela experiência de ver televisão, ela de facto pouco mais é do que o instrumento dessas empresas.
Nos EUA, quatro em cada cinco dólares dos rendimentos televisivos advêm dessas empresas, o que significa obviamente que se as redes de televisão não as "lisonjeassem", deixariam de existir. ... Sem esse instrumento único e monolitico que é a televisão, o poder e controlo efectivos dessas grandes empresas não poderia exercer-se com acontece actualmente.
Um empreendimento económico monolitico necessita de meios de transmissão monoliticos para para divulgar a sua filosofia e promover mudanças rápidas nos padrões de consumo. As próprias empresas não poderiam existir sem um instrumento como a televisão, capaz de atingir todas as pessoas ao mesmo tempo e adaptar as necessidades humanas ao novo modelo do meio ambiente.

Jerry Mander em Quatro argumentos para Acabar com a Televisão

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Continentes e Desertos


Na praia sob um chapéu à Hockney
eu vi uma história da guerra
o sol que me caía no corpo também caía
no vosso corpo

sobre a praia sob o chapéu de listas
verdes e azuis mal se distinguindo a luz
do verde e do azul sendo sempre aos que
passavam só azul, apenas verde como

vós, perfeitos corpos imperfeita coisa
de dizer. Um,
era a própria corrida que lançava sobre
a Costa a leve penugem negra como só

aos trinta anos ainda têm os portugueses
ah! oh! o outro não era tão bonito
era bonito, lembrando a cada um a guerra
a guerra a guerra puta que pariu
e mais às áfricas, com menos uma perna era

levado sob a areia
que ventos levemente erguiam
com um braço sobre o outro entrando o
mar

Ainda havia uma criança, algumas bichas
e um moinho de papel que depois comprei.
João Miguel Fernandes Jorge em Poemas Escolhidos

domingo, 28 de setembro de 2008

Paul Newman (1925-2008)


Lucas, 21, 28



Quando o último pássaro morrer
na última oliveira a ocidente
opõe o peito ao que acontecer
e levanta a cabeça dignamente

Despede-te da terra onde nascer
tu nascias enfim contìnuamente
repara no nascente e no poente
que muito em breve deixarás de ver

Não valem cinco pássaros apenas
dois asses e Deus não os reconhece
no meio das demais coisas terrenas?

Levanta-te. Coragem coração
O Espírito nas coisas comparece
Aproxima-se a libertação


Ruy Belo em Homem de Palavra(s)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A Grajeia


A grajeia caíu
no próprio chão que havia.

Amarelo impossível,
de trémulas mãos
a grajeia saltou
e no chão rolou,
se arredondinhou.

Cara de santinha,
quase auréola tinha.
Santa que tira a febre,
não santa que a dá,
cara de lua cheia,
a grajeia ficou
onde esteve (está?)

Alexandre O'Neill em As horas já de números vestidas (1981)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Mendigo Com Lugar Cativo


Com o tapa-misérias a escorrer-lhe dos ombros,
o morse da bengala apercutir o chão,
remorseando vai os passarões que somos.

A dedo, a medo, a desfazer o gesto,
na ranhura da caixa a moeda metemos.

Metida a moeda, o espantalho fala
do céu que, sem dúvida, merecemos.

Que pragas calarás quando não damos?

Alexandre O'Neill em As Horas Já De Números Vestidas (1981)

sábado, 6 de setembro de 2008

Fala!


Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala franciú fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.

Alexandre O'Neill em Abandono Vigiado (1960)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os Faxes


Por causa dos fusos horários, que eram muitos, os faxes chegavam de madrugada. Entravam por baixo da porta empurrados pelo empregado nocturno do hotel, e eu ouvia-os a escorregarem pela frincha da porta, e imaginava que era ela a sussurar-me. Depois, adormecia novamente, e só quando me levantava de manhã os lia - muito vagarosamente - enquanto tomava o pequeno-almoço.


António Pinto Ribeiro em Melancolia

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Bilhetes


Nas duas primeiras vezes só me apercebi dessa presença quando, arrumando a roupa nas gavetas do quarto do hotel, uma tira de papel branco com a frase "volta depressa" caiu para o chão e, mais tarde, quando abri o estojo de viagem e vi um outro bilhetinho que dizia "não te eclipses". Depois, eu próprio, já prestes a fechar a mala, interrompia a operação e afastava-me para lhe dar tempo par lá pôr outro bilhete. Quando chegava ao destino, abria a mala e era a primeira coisa que procurava.

António Pinto Ribeiro em Melancolia

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Um Atraso Português


A qualidade do trabalho dos jornalistas está em vias de regressão e, com a precarização galopante da profissão, acontece o mesmo com o seu estatuto social. Assiste-se a uma autêntica e tremenda taylorização profissão.É preciso ver no que se transformaram as redacções, quer as dos jornais quer as das rádios e das televisões: reparamos nas celebridades que assinam os grandes editoriais ou que apresentam os telejornais, mas essas "estrelas" ocultam, de facto , centenas de jornalistas reduzidos à situação de meros auxiliares. "Aos poucos, o sector dos media foi ganho, por sua vez, pelo neoliberalismo, e a informação tende a ser cada vez mais uma subempreitada entregue a jornalistas precários prontos para todos os fretes que trabalham as matérias que lhes são fornecidas e fabricam uma informação por encomenda."

Ignacio Ramonet em A Tirania da Comunicação com citação de Patrick Champagne (1998/99)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sol de Inverno


Os joelhos gelam ao vento alto das ervas.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.

António Ramos Rosa em Nos Seus Olhos De Silêncio

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Reviver


Quando foi a última vez que vos beijaram as mãos? E, se beijaram, como é que sabem que foi bem feito? ( Mais, quando foi a última vez que alguém vos escreveu a dizer que vos beijava as mãos?) Eis o argumento do mundo da renúncia. Se sabemos mais de consumação, eles sabiam mais de desejo. Se sabemos mais de números, eles sabiam mais de desespero. Se sabemos mais de gabarolice, eles sabiam mais de lembrança. Eles tinham beijos nos pés, nós temos de chupar os dedos. Ainda preferem o nosso lado da equação? Pode ser que tenham razão. Então tentem uma formulação mais simples: se nós sabemos mais de sexo, eles sabiam mais de amor.

Julian Barnes em Reviver in A Mesa Limão

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Matar Saudades (II) - Das Sardinhas e do Eduardo


A questão naquela noite de sardinhada, em Alfama, é que eu já não queria sardinhas nenhumas e tinha de fingir. Não podia desaparecer de um momeno para o outro. Mas tinha sofrido o meu primeiro choque afectivo, aprendera à minha custa que as pessoas nunca estão definitivamente adquiridas, e o peixe abandonado gera os focos de infecção. Fechei os olhos para não te ver, apetecia-me que não tiveses nunca existido, mas continuei de mãos dadas contigo, para que todos acreditassem que tudo estava bem connosco. Mais tarde saberia que tinha sido melhor assim. E que as sardinhas sabiam melhor do que alguma vez pensara.



Eduardo Prado Coelho em Nacional e Transmissível

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Matar Saudades - Do Bacalhau e do Eduardo


" O bacalhau ia e vinha por entre as conversas habituais. Para uns, a televisão, algum "fait-divers" dos telejornais, os concursos e as telenovelas ( mais as portuguesas do que as brasileiras). Insistiam em que o bacalhau estivesse pouco salgado, e pediam que na semana seguinte fosse assado com batatas a murro. Outros discutiam sobretudo futebol, numa rivalidade entre o Sporting e o Benfica, apenas atenuada pela embirração de não gostarem nem do F.C.Porto, nem sobretudo do Pinto da Costa e a sua lata tão inexcedível que até engoliu o apito. Às vezes falavam de política e comentavam o Sócrates depois de se terem metodicamente atirado ao Santana Lopes. Mas era raro, o futebol estava primeiro, rei de todos os desportos tal como o bacalhau era rei da gastronomia autenticamente portuguesa. "Então hoje temos bacalhauzada?" . E a pergunta, algo teórica, abria um espaço de convivialidade gastronómica"

Eduardo Prado Coelho em Nacional e Transmissível

sábado, 24 de maio de 2008

Micropaisagem


PUZZLE

I

O sono
cresce como
se
uma anestesia
ténuescura
se
propagasse
do cérebro
pela rede nervosa
friamente
até aos dedos
e o tacto
dos homens
esquecesse

Carlos de Oliveira "Micropaisagem"

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Posto de Gasolina


Poiso a mão vagarosa no capot dos car-

ros como se afagasse a crina dum cavalo.

Vêm mortos de sede.Julgo que se perderam

no deserto e o seu destino é apenas terem

pressa. Neste emprego, ouço o ruído da en-

grenagem, o suave movimento do mundo a

acelerar-se pouco a pouco. Quem sou eu, no

entanto, que balança tenho para pesar sem

erro a minha vida e os sonhos de quem

passa?
Carlos de Oliveira "Sobre o Lado Esquerdo"